Uma empresa que rastreia sua cadeia de couro até a fazenda de origem chega a um ponto de decisão quando um auditor, um cliente estrangeiro ou um regulador pede a prova documental. Para comprovar, ela pode abrir contratos, volumes e a identidade de fornecedores estratégicos. Ou pode manter esses dados fechados e perder a capacidade de sustentar o que afirma sobre a própria cadeia.
Essa escolha se repete em cada exportação. O Brasil registrou US$ 348,7 bilhões em exportações em 2025, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e as vendas externas somaram US$ 24,14 bilhões até a terceira semana de agosto de 2026, um crescimento de 14,3% frente ao mesmo período de 2025, segundo dados do Governo Federal. Na Europa, novas regras de sustentabilidade, due diligence e rastreabilidade aumentam a exigência por evidências verificáveis ao longo da cadeia de fornecimento, e cada exigência nova reabre o mesmo dilema entre provar e proteger.
André Salem, CEO da Blockforce, descreve esse dilema como o ponto de partida da empresa. "Nosso desafio sempre foi permitir que as empresas comprovassem sua cadeia de fornecimento sem precisar expor fornecedores e contratos para a concorrência. A parceria com a Cardano Foundation permite combinar a privacidade dos dados comerciais com uma camada pública e independente de verificação", afirma Salem.
A solução: separar o dado da prova de que ele existe
A Blockforce e a Cardano Foundation firmaram uma parceria que trata as duas necessidades, provar e proteger, como partes de um mesmo mecanismo, em vez de escolhas excludentes. A Blockforce é uma empresa brasileira de rastreabilidade de cadeias produtivas e compliance global. A Cardano Foundation é uma organização suíça sem fins lucrativos dedicada a promover a Cardano como infraestrutura digital pública. Juntas, colocam a rede pública Cardano como camada de verificação da plataforma de rastreabilidade da Blockforce.
A arquitetura funciona separando o dado do registro que comprova sua existência. Contratos, notas fiscais e cadastros de fornecedores permanecem em infraestrutura privada da Blockforce. Na rede pública Cardano, é publicada apenas uma prova criptográfica de que aquele conjunto de dados existe e não foi alterado desde o momento do registro. Auditores, clientes e reguladores podem verificar essa prova sem acessar as informações estratégicas da empresa.
Guilherme Pereira, Ecosystem Growth Specialist LATAM da Cardano Foundation, descreve o efeito prático dessa separação: "Quando uma blockchain pública se torna invisível no dia a dia dos negócios, a tecnologia está fazendo exatamente o que deveria. Exportadores brasileiros estão sob pressão crescente para mostrar de onde vêm seus produtos e como suas cadeias operam. Esta parceria traz essa verificação para dentro da operação diária e, com a infraestrutura presente em grandes cadeias da moda por todo o Brasil, estamos vendo como blockchain pode fazer diferença no funcionamento real do comércio global."
Viabilizar essa separação em escala corporativa exigiu trabalho conjunto de engenharia entre as duas empresas, que resultou em uma redução de 92% no custo por registro. Sem essa queda, o volume de registros gerado por uma operação corporativa, milhares por mês, tornaria a infraestrutura pública inviável do ponto de vista de custo.
A tecnologia já soma mais de 500 mil registros de supply chain em operação com grandes grupos brasileiros. Os contratos assinados entre as duas empresas preveem a expansão para 6,5 milhões de registros certificados até 2030, distribuídos entre diferentes setores da economia.
Caso de uso para cadeias de suprimentos complexas
A separação entre dado privado e prova pública já está em operação na cadeia de couro, historicamente difícil de rastrear até a fazenda de origem.
Entre os clientes está o Azzas 2154, o maior grupo de moda da América Latina, que hoje consegue rastrear 43,7% da matéria-prima e tem a meta de chegar aos 100% até a fazenda de origem até 2030.
"Esse é só o primeiro passo. Outro ponto bastante importante é termos dados auditáveis, com o mesmo padrão em todas as nossas marcas e mercados, o que significa levar esse padrão para toda a nossa cadeia de fornecedores", diz Suelen Joner, head de sustentabilidade do grupo.
A empresa combina documentos fiscais, registros de fornecedores e bases públicas oficiais em um histórico único por produto, mantendo contratos e volumes de fornecedores em ambiente próprio enquanto a rede pública garante que cada etapa registrada não foi alterada depois do fato. Os detalhes técnicos dessa arquitetura estão disponíveis no estudo de caso publicado pela Cardano Foundation.
A expectativa das duas empresas é levar a solução para os setores automotivo, agropecuário, farmacêutico e de cosméticos, onde o mesmo dilema entre provar origem e proteger dados comerciais também limita a capacidade de resposta a auditorias e exigências regulatórias.
A Blockforce conecta hoje mais de 6.200 fornecedores e soma mais de 9 milhões de itens registrados em blockchain. A parceria com a Cardano Foundation adiciona a essa base uma camada de verificação pública e independente, sem alterar como a empresa já processa os dados de seus clientes.